Crítica - Backrooms
O Youtuber na A24
Backrooms é um drama psicológico de terror dirigido por Kane Parsons, um jovem cineasta de 20 anos, sendo este o seu primeiro longa. Produzido pela A24, o filme se enquadra no popular gênero "terror elevado", muito comum nos últimos anos, fugindo de sustos rasos e do terror genérico para tentar algo mais profundo. A questão é: ele consegue isso? A resposta é sim, mas com ressalvas.
A direção de Kane Parsons é surpreendente dado o contexto. Conforme citado em entrevistas, ele não é necessariamente um amante de cinema com formação e experiência tradicional, mas um YouTuber que construiu sua linguagem ali, o que resultou em uma abordagem inconvencional. Embora existam pontos em que a inexperiência no cinema clássico fique visível, Kane possui uma linguagem própria que funciona, conduzindo bem um filme que se assume lento e contemplativo. Os momentos de tensão e desespero são muito bem construídos, principalmente nas cenas em found footage, onde não sabemos o que nos espera na próxima esquina. No geral, o filme se passa quase inteiramente em ambientes internos, com poucos personagens, e apresenta visuais agradáveis, mostrando que o diretor teve um bom controle do ritmo contemplativo.
A Câmera Objetiva contra o Found Footage
O filme carece de variedade de planos, utilizando os mesmos enquadramentos quase o filme inteiro. Juntando isso a uma composição visual que é carregada pela direção de arte e pelo design de produção, o filme poderia ter uma composição mais sofisticada, principalmente considerando a natureza da trama. Entendo que é um diretor jovem que, ao contrário do Curry Barker, do recente Obsession, não possui uma grande ligação ou estudos no cinema tradicional. A fotografia de Obsession é simples, porém efetiva, com um controle da mise-en-scène e da iluminação para contar a história, algo em que Backrooms fica atrás. O filme se limita a planos nas costas dos personagens e cortes frontais o tempo todo. É uma limitação técnica, e a culpa também é do diretor de fotografia.
Justamente por isso, os melhores momentos são as sequências com câmera na mão em found footage. Essas cenas são espetaculares e constroem uma tensão que não se repete quando o filme usa a câmera objetiva. Vejo que o cinema tradicional exige uma sofisticação que Kane ainda não tem, enquanto o found footage é justamente sua linguagem e área por conta dos seus curtas. Nesses momentos, tudo é perfeito, o que me trouxe a sensação de que o filme inteiro deveria ser assim.
Parte disso também pode ser culpa da edição, apesar do trabalho ser bom no geral. O editor Greg Ng, o mesmo do ótimo Longlegs, realiza um bom trabalho auxiliando a direção e visão de Kane na tensão e no desconforto, garantindo que os planos sejam sustentados o bastante para não nos confundir na geografia do espaço, fora quando a desorientação é intencional. Se a montagem corta cedo demais em alguns momentos, entendo que o editor não teve muita opção, uma vez que o diretor e o fotógrafo provavelmente não rodaram planos mais longos. Apesar dessa crítica à decupagem, Kane consegue contar a história de forma efetiva na maior parte do tempo, utilizando os planos para passar com eficiência a sensação de imensidão e isolamento das backrooms.
A Metáfora e os Tropeços
O filme encontra seus principais problemas no roteiro escrito por Will Soodik. O roteiro e a direção constroem o incômodo e nos guiam a uma alusão interessante sobre a trama, que funciona como uma visão de terror psicológico onde o espaço geográfico é uma metáfora para o estado dos personagens, algo que eu particularmente sou um grande fã e utilizo nos meus filmes. O longa se propõe a ser um drama psicológico focado nos personagens, transformando as backrooms em uma alusão inteligente e interessante para tudo isso.
O problema é que o roteiro tropeça em momentos de exposição. Esses tropeços acontecem principalmente no terceiro ato. O filme erra ao deixar a mensagem clara por meio de diálogos expositivos que explicam o subtexto que a direção já havia estabelecido. Metade desses diálogos do terceiro ato poderiam ser cortados e traduzidos através da mise-en-scène. Afinal, até aqui, o filme já tinha feito um bom trabalho em estabelecer o subtexto, restando apenas dar continuidade. O desenvolvimento dos personagens é bom, mas o protagonista, interpretado por Chiwetel Ejiofor, é explorado em alguns momentos de forma que deixa a sensação de que está faltando algo. No geral, o roteiro é sólido, com alguns erros estruturais simples, mas que é bom o bastante para mostrar a visão de Kane, apesar de às vezes explicar demais.
Um Drama Inexplorado
Quanto às atuações, Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve estão ótimos e entregam exatamente o que o roteiro pede. Entretanto, para quem assistiu à fantástica atuação de Reinsve no ano passado em Sentimental Value, os atores podem parecer um pouco apagados. Eles cumprem o esperado, mas não é o melhor papel de suas carreiras, nem atuações que eu possa chamar de fantásticas. Um roteiro mais inteligente poderia ter explorado mais o potencial deles. O filme é sustentado quase inteiramente por eles, e enquanto Reinsve acaba ficando um pouco mais apagada, Ejiofor se sai melhor.
O Ápice do Design de Produção e Som
A direção de arte e o design de produção do filme são fantásticos, são o ápice da obra e dependendo dos concorrentes da temporada, pode render uma indicação a prêmios. As backrooms foram construídas de maneira magistral, carregando a composição visual nas costas por meio de um trabalho de primeira linha, onde cada nível e espaço vai ainda mais longe, contando inclusive com um ótimo uso de efeitos práticos.
Outro ponto forte é o som e a trilha sonora, que auxiliam na construção da tensão e na crescente sensação de desconforto. Como o terror do filme vem daquilo que não vemos, mas ouvimos e imaginamos, o departamento de som realizou um trabalho excepcional. Por isso, o longa executa muito bem a sua proposta de imersão, trazendo toda a atmosfera de tensão e estranheza que se espera de backrooms. O filme é estranho e deixa a gente desconfortável o tempo inteiro, com bons sustos que não precisam apelar para jumpscares exagerados. No fim, a direção de Kane, aliada ao design de produção e ao som, faz um trabalho excelente para nos transportar as backrooms, tornando o filme uma experiência interessante para se assistir sozinho, em um quarto escuro e silencioso em uma segunda rodada.
Um Olhar Particular
Mas o que realmente me chamou atenção e me fez admirar Kane Parsons é que, em meio a um turbilhão de produções ruins e genéricas no mercado, ele foi capaz de criar algo próprio, com alma e significado. Ele se arriscou, dividiu parte do público, mas fez um filme que de fato causa impacto durante suas quase duas horas. O filme falha em alguns pontos e, por conta disso, em meio a tantos filmes que assisto e estudo, este não é um que eu particularmente vá me lembrar por muito tempo, mas reconheço que isso seja uma conclusão 100% minha.
Da mesma forma, minha crítica em relação à falta de planos longos na câmera objetiva é um gosto particular, já que sou grande fã de planos longos e costumo filmar desse jeito, e é um detalhe que não vi mais ninguém comentar. Mesmo não sendo um filme perfeito, Backrooms cumpre bem o papel de prender o espectador naquele espaço e transmitir a sensação de que algo está errado. A direção e a mensagem de Kane são ótimas, o que me deixa entusiasmado para ver o que ele vai fazer em seus próximos filmes. É um filme interessante que pretendo rever para uma segunda conclusão.
Avaliação: ★★★⯪☆
Hugo Baroni • Crítica Técnica
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