Crítica - Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You) não é um filme comum, é uma experiência claustrofóbica. A direção de Mary Bronstein nos prende em uma narrativa formada por planos fechados, sem espaço para respirar. Quase não há planos abertos, a câmera está sempre perto, íntima, nos forçando a encarar de forma angustiante a rotina caótica de Linda, interpretada por Rose Byrne em seu auge.
O Enquadramento como Prisão
A escolha da direção é clara, o isolamento através do enquadramento. O foco está em Linda, com um fundo neutro ou desfocado. Isso serve para separar Linda do cenário, destacando sua solidão. Mas a mise en scène e o design de produção brilham quando o desfoque é deixado de lado para revelar algo, como o apartamento de Linda bagunçado, que reflete o estado de sua vida.
Outra escolha da direção é a ausência dos outros personagens na tela. Apesar de serem peças fundamentais na vida de Linda, alguns personagens não aparecem em tela até o fim do filme, mas estão na cena de outras maneiras. Essa é uma decisão inteligente da direção e do roteiro para manter o foco em Linda. Não se trata de ignorar os outros personagens, mas de manter a história centrada em Linda, como se fizéssemos parte da cabeça dela, e o restante fosse ruído.
Rose Byrne em seu Auge
Um filme feito de close-ups exige uma atuação excepcional, e Rose Byrne entrega exatamente isso. Quando a câmera está colada no rosto da atriz, prestamos mais atenção no que não é dito. Byrne venceu o Globo de Ouro por uma performance fantástica, onde ela não precisa cair no choro para entendermos o quão perto do colapso ela está. O trabalho da maquiagem é muito importante aqui para vermos o progresso do esgotamento, a cada cena Linda está com o rosto cada vez mais cansado e abatido. A maquiagem e a atuação trabalham em conjunto na construção do colapso.
O Colapso Sonoro e Visual
Essa construção também é auxiliada pela sintonia entre a montagem e o design de som. O filme alterna entre planos longos, sustentados pela atuação muitas vezes angustiante (no bom sentido) de Byrne, e cortes rápidos e sufocantes que espelham o caos do colapso iminente. O som é parte vital disso, criando uma tensão constante. O bip do monitor é um exemplo perfeito do design de som preciso. É construído uma angústia onde você sabe que o tempo todo algo está errado e Linda está prestes a transbordar, sufocada pela maternidade e pela solidão.
O Realismo Cru
O roteiro é inteligente, sem diálogos expositivos, algo muito comum nos filmes de hoje. O subtexto está presente, com o filme respeitando a inteligência do espectador. Se trata de um drama realista, mas às vezes o filme flerta com momentos surrealistas, como “sonhos” que espelham o psicológico de Linda. Algo que, para mim, não agrega tanto à trama e poderia ser descartado. Eu entendo a intenção de mostrar a psique da Linda por meio desses momentos, mas o filme funciona melhor como um drama cru e realista, e a rotina caótica e sufocante já era o suficiente.
Um Drama Potente
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um filme corajoso. Um filme que não subestima a inteligência do público e prova que, com uma boa direção, um design de som forte e uma atuação excepcional, é possível criar uma experiência intensa, angustiante e claustrofóbica.
VEREDITO
4 de 5 Estrelas
Comentários
Postar um comentário